Chuvas na Zona da Mata expõem Brasil sem seguro e recolocam “Cidades Protegidas” no centro do debate

As enchentes e deslizamentos na Zona da Mata mineira, em fevereiro, transformaram Juiz de Fora, Ubá e outras cidades em símbolos de uma equação repetida: extremos climáticos em áreas vulneráveis, muitas mortes e milhares de desabrigados, com baixa ou nenhuma proteção securitária para famílias e pequenos negócios.

“Viver de doações não é modelo de proteção”

Para o presidente do Sincor‑MG, Gustavo Bentes, a tragédia em Minas Gerais não é apenas um evento climático, é um retrato de vulnerabilidade estrutural. Ele lembra que boa parte das casas atingidas está em encostas e margens de rios, muitas sem projeto formal, sem habite‑se, construídas em áreas de risco, exatamente o tipo de imóvel que costuma ficar fora do radar dos seguros tradicionais.:

“O grande problema é não termos a garantia de que essas famílias tenham recursos em situações como essa. Sem isso, passamos a viver de doações, o que não se sustenta. O mercado de seguros precisa se posicionar de forma antecipada, e o projeto Cidades Protegidas surge justamente para transformar a análise, o entendimento e a cultura de proteção no país”

O dirigente reforça que, se famílias nessas condições tivessem seguro residencial, patrimonial e de pessoas (vida, morte acidental, invalidez, assistência funeral), haveria uma rede mínima de proteção para o pós‑desastre. Sem isso, alerta, a sociedade acaba recorrendo a campanhas de emergência, vaquinhas e doações, importantes no choque inicial, mas incapazes de substituir uma política de proteção continuada, baseada em seguro e planejamento.

Leia, na íntegra, a entrevista do presidente do Sincor‑MG, Gustavo Bentes, sobre as enchentes e deslizamentos na Zona da Mata mineira

Cidades Protegidas: calendário 2026 e ambição de política pública

A mesma fala que aponta a fragilidade também apresenta uma agenda: o Projeto Cidades Protegidas. Criado pelo Sincor‑MG, o programa quer colocar gestão de riscos, seguro e adaptação climática na pauta das prefeituras, aproximando corretores, seguradoras e autoridades municipais.

Para 2026, o Sincor‑MG divulgou um calendário que cobre todas as regiões do estado, com eventos em cidades como Ipatinga, Governador Valadares, Montes Claros, Sete Lagoas, Divinópolis, entre outras. Em cada encontro, a proposta é discutir vulnerabilidades locais, papel do seguro na proteção do orçamento público e mecanismos de transferência de risco para eventos como enchentes, vendavais e deslizamentos.

Na prática, a tragédia da Zona da Mata dá concretude ao discurso do projeto: sem incorporar risco climático e exposição territorial na gestão municipal, o seguro chega pouco e tarde, quando já há mortos, desabrigados e infraestrutura destruída.

Saiba mais sobre o Projeto Cidades Protegidas, criado pelo Sincor‑MG

Donos de carros alagados: quem recebe indenização?

Enquanto o debate estrutural acontece, a dúvida imediata dos moradores é direta: “Meu carro foi levado pela água. O seguro paga?”:​

  • Nos seguros auto compreensivos (o “seguro completo”), fenômenos da natureza, como enchentes, alagamentos e tempestades, costumam estar incluídos, junto com colisão, incêndio, roubo e furto.​
  • Se o veículo tiver essa cobertura e for comprovado que o dano decorreu da enchente (por exemplo, perda total por submersão), a indenização pode ser paga conforme o tipo de contratação: valor de mercado referenciado ou valor determinado.​
  • Já apólices mais simples, limitadas a roubo e furto, geralmente não cobrem danos de enchentes.​

A orientação do setor é registrar o sinistro o quanto antes: com fotos, vídeos, boletim de ocorrência quando cabível – e acionar seguradora ou corretor para acelerar perícia e análise. O detalhe que a tragédia explicita é que, mesmo entre quem tem carro segurado, muitos descobrem só depois do desastre que contrataram uma modalidade de menor cobertura.​

Crise climática, modelos de risco e exclusão securitária

Os conteúdos setoriais que trataram da tragédia em Minas conectam o episódio a um cenário mais amplo de mudança climática e revisão de modelos de risco. A frequência e a severidade de eventos extremos pressionam seguradoras a recalibrar mapas de risco, franquias, limites e preços em todo o país, e Minas Gerais aparece como laboratório involuntário dessa transição.

Por outro lado, a entrevista do Sincor‑MG chama atenção para um ponto sensível: a tendência de simplesmente excluir áreas de risco, em vez de buscar soluções combinadas (seguro, resseguro, subsídio público, realocação planejada, obras de mitigação). Se o mercado apenas “fecha a porta” para comunidades vulneráveis, a consequência é aprofundar a exclusão securitária em um contexto de risco crescente.

A tragédia na Zona da Mata, então, vira uma espécie de estudo de caso forçado: mostra o custo social de manter uma massa de pessoas fora do sistema de seguros ao mesmo tempo em que o clima empurra a curva de perdas para cima

Fonte: CNseg | Notícias do Seguro