Estreito de Ormuz: por que US$ 20 bilhões não resolvem o problema do Seguro Marítimo

O novo programa de resseguro criado pelos Estados Unidos para o Estreito de Ormuz chama atenção pelo tamanho: até US$ 20 bilhões. Mas o ponto central não é o volume de recursos, e sim o que essa proteção cobre (e o que deixa de cobrir).

Na prática, o mercado entende que o programa ainda não resolve o principal risco enfrentado pelos armadores: a responsabilidade civil em caso de grandes acidentes, especialmente os ambientais.

O que é o programa de resseguro para o Estreito de Ormuz

No início de março, a U.S. International Development Finance Corporation (DFC) lançou um programa de resseguro marítimo para embarcações que cruzam o Estreito de Ormuz, uma das rotas mais estratégicas do comércio global de petróleo.

A proposta funciona como um “colchão de segurança” público, com objetivo de:

  • apoiar seguradoras privadas
  • viabilizar a emissão de apólices
  • manter o fluxo de comércio marítimo

A seguradora Chubb atua como líder na emissão das apólices, enquanto o governo americano entra como ressegurador.

Um detalhe importante: o limite de US$ 20 bilhões funciona em base “rolling”, ou seja, pode ser recomposto à medida que sinistros são pagos.

O gargalo: o que o seguro não cobre

Apesar do volume expressivo, o programa enfrenta um problema estrutural: ele cobre principalmente danos diretos ao navio e à carga, mas não resolve bem os riscos de terceiros.

Segundo a Moody’s Ratings, esse é o principal motivo pelo qual muitos armadores ainda evitam operar na região.

O “gap” de cobertura envolve:

  • poluição por derramamento de petróleo
  • danos ambientais de grande escala
  • custos de limpeza
  • impactos econômicos em regiões costeiras
  • ações judiciais e danos reputacionais

Em um cenário de ataque a um petroleiro, o maior prejuízo pode não ser o navio - mas o passivo ambiental e jurídico.

O papel dos clubes de P&I - e por que eles recuaram

Tradicionalmente, esses riscos são cobertos pelos chamados clubes de P&I (Protection and Indemnity), associações de armadores que oferecem proteção mútua.

O problema é que, com a escalada do conflito:

  • limites de cobertura foram reduzidos
  • capacidade de proteção diminuiu
  • em alguns casos, coberturas foram cortadas pela metade

Isso amplia ainda mais a diferença entre:

  • o que o programa cobre (casco e carga)
  • o que o armador teme (responsabilidade civil)

O olhar do mercado: risco alto, mas controlável

Para a Moody’s, o risco atual ainda é administrável em escala global, mas com alto potencial de perdas em eventos extremos.

Alguns números ajudam a entender o cenário:

  • cerca de 20 embarcações já foram atacadas
  • valor estimado de navios na região: US$ 25 bilhões
  • cenários extremos podem chegar a US$ 40 bilhões ou mais

Para comparação, eventos climáticos recentes, como furacões, já geraram perdas superiores a US$ 50 bilhões, absorvidas pelo mercado global.

A diferença está na concentração:

  • riscos climáticos → pulverizados globalmente
  • riscos marítimos de guerra → concentrados em poucos players especializados

Como as seguradoras estão reagindo

Com o aumento do risco, seguradoras e clubes de P&I adotaram medidas rápidas:

  • cancelamento quase imediato de coberturas de guerra
  • reprecificação das apólices
  • redução de limites
  • aumento de franquias
  • inclusão de exclusões mais rígidas

Esse movimento segue uma lógica clássica do mercado: reduzir exposição primeiro, reofertar depois com novas condições

Mesmo assim, há limites:

  • coberturas não podem ser canceladas durante uma viagem em andamento
  • algumas seguradoras ainda mantêm exposição até o fim das rotas

O Brasil nesse cenário global

Enquanto o Estreito de Ormuz se torna mais arriscado, o Brasil ganha relevância como fornecedor de petróleo.

Dados do Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás (IBP) mostram que:

  • o país é um dos grandes produtores globais
  • o petróleo lidera as exportações brasileiras
  • a produção deve chegar a 4,2 milhões de barris/dia até 2028

Além disso, o pré-sal apresenta:

  • alta produtividade
  • menor emissão de carbono por barril

Em um cenário de instabilidade geopolítica, rotas mais seguras - como as brasileiras - ganham competitividade.

Por que a responsabilidade civil decide o jogo

No fim das contas, o problema do programa não é financeiro: é estrutural.

Sem cobertura robusta de responsabilidade civil:

  • armadores continuam expostos ao maior risco
  • um único acidente pode gerar perdas bilionárias
  • o incentivo para operar na região permanece baixo

Ou seja: não é o tamanho do cheque que importa, é o tipo de risco que ele cobre

O que esse caso ensina para o futuro dos seguros

O Estreito de Ormuz virou um laboratório para uma discussão maior:

Qual deve ser o papel do Estado como ressegurador de riscos extremos?

Esse debate vai além do transporte marítimo e envolve outros riscos complexos:

  • eventos climáticos extremos
  • ataques cibernéticos
  • pandemias
  • conflitos geopolíticos

A forma como esses riscos serão compartilhados entre mercado e governo deve influenciar toda a arquitetura global de seguros nas próximas décadas.

Fonte: CNseg | Notícias do Seguro