Abril é o mês da “zica” do mercado segurador?
É provável que os atuários (são os profissionais que precificam os riscos assumidos pelas seguradoras) não acreditem em bruxas, mas as evidências mostram que elas parecem gostar de fazer uma “visitinha” ao mercado segurador em abril, olhando a concentração de eventos vultosos ao longo da história. Sim, abril pode ser visto como um mês particularmente desafiador em termos de sinistros para o mercado mundial de seguros. Isso porque, ao longo das décadas, eventos de grande magnitude ocorreram justamente nesse mês, alimentando a percepção de uma sazonalidade adversa.
Entre os episódios mais marcantes está o naufrágio do RMS Titanic, em 15 de abril de 1912. Considerado um divisor de águas para o mercado, o evento mobilizou um consórcio internacional de seguradoras, incluindo companhias que dariam origem à Chubb Limited, que liquidou indenizações de casco e carga em cerca de 30 dias, demonstrando notável capacidade operacional para a época.
Poucos anos antes, em 18 de abril de 1906, o San Francisco earthquake devastou a cidade americana, destruindo aproximadamente 500 quarteirões e gerando perdas seguradas estimadas em US$ 235 milhões (valores da época). O evento expôs fragilidades financeiras relevantes no setor: diversas seguradoras não conseguiram honrar integralmente suas apólices, o que levou à insolvência de algumas delas e impulsionou mudanças estruturais na regulação e na gestão de riscos.
Grandes incêndios tomaram São Francisco após o Terremoto de São Francisco de 1906, estendendo-se por dias e agravando de forma decisiva os danos provocados pelos abalos sísmicos. As estimativas apontam para mais de 3.000 mortes, enquanto aproximadamente 80% da cidade foi reduzida a escombros.
O desastre é reconhecido como o terremoto mais letal da história dos Estados Unidos. Até hoje, o número de vítimas representa a maior perda de vidas em um evento natural na Califórnia, posicionando a tragédia entre as mais severas já registradas no país.
No Brasil, um dos exemplos mais recentes foram as chuvas intensas que tiveram início no fim de abril de 2024 e se estenderam por maio, especialmente no Rio Grande do Sul. O episódio desencadeou a maior operação de regulação de sinistros da história do mercado segurador brasileiro, com impactos em mais de 90% dos municípios do estado - um teste sem precedentes para a capacidade de resposta das seguradoras.
Nos Estados Unidos, abril também tem sido palco recorrente de eventos climáticos severos. Temporais e tornados registrados em anos recentes, como 2020 e 2025, produziram perdas multibilionárias, reforçando o papel da primavera no hemisfério norte como período crítico para riscos catastróficos, especialmente no chamado “Tornado Alley”.
O padrão se repete em outras regiões. As inundações na Arábia Saudita, em abril de 2024 - as mais severas em 75 anos - resultaram em cerca de US$ 3 bilhões em perdas seguradas, evidenciando como eventos extremos estão se tornando mais frequentes e geograficamente dispersos, em linha com os efeitos das mudanças climáticas.
Na era digital, os riscos de abril não se limitam mais a catástrofes naturais. Casos recentes de fraude envolvendo inteligência artificial, como o episódio conhecido como “Bear Suit”, na Califórnia - em que fraudadores utilizaram fantasias de urso para simular danos a veículos de luxo - ilustram uma nova fronteira de perdas. A sofisticação dessas fraudes aponta para um desafio crescente: o uso de IA generativa para criar evidências falsas, elevando o risco operacional e pressionando os sistemas antifraude das seguradoras.
Apesar da concentração de eventos adversos, abril também ocupa um lugar relevante na construção institucional do setor. Em 25 de abril de 1968, foi estruturada a operação que marcou a introdução do seguro de crédito à exportação no Brasil, por meio do Instituto de Resseguros do Brasil (IRB), ampliando a proteção aos exportadores contra riscos comerciais e políticos.
Recuando ainda mais no tempo, abril de 1808 marca o início formal da atividade seguradora no país. Com a chegada da família real portuguesa e a abertura dos portos, foi criada a Companhia de Seguros Boa-Fé, pioneira no seguro marítimo e embrião da estruturação do mercado segurador nacional.
Fonte: CNseg | Notícias do Seguro