Artigo: A necessidade de nos prepararmos para o futuro
Dois anos após as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul quase que por completo, o Estado ainda convive com os efeitos de uma tragédia que expôs fragilidades e nos colocou à prova. O cenário não apenas mobilizou esforços emergenciais, como também colocou em debate a forma como a sociedade gaúcha enxerga a prevenção e a proteção diante de eventos climáticos cada vez mais frequentes.
A pandemia de COVID-19 foi um marco na história, inclusive para o mercado segurador do mundo todo. Quem viveu de dentro sabe que não foi fácil, mas também sabe que foi nesse período que o setor aprendeu, na prática, o que significa estar preparado quando o mundo para.
Em 2020, com o mundo paralisado, o mercado demonstrou uma resiliência que surpreendeu. O setor honrou seus compromissos, e as famílias que tinham apólices sentiram, na maioria dos casos pela primeira vez, o que é ter uma rede de proteção quando ela realmente faz diferença. No segmento de vida, as indenizações pagas chegaram a ser quase 70% maiores em 2021 do que em 2019, reflexo direto das mortes causadas pela COVID-19.
Algo mudou também do lado do consumidor. No início da pandemia, as buscas por seguros de vida dispararam, chegando a triplicar em algumas modalidades. As pessoas, confrontadas de repente com a própria vulnerabilidade, passaram a enxergar o seguro de outro jeito. Não mais como um gasto que se evita, mas como uma decisão que se toma antes que seja tarde. Esse aprendizado coletivo foi silencioso, mas real, e moldou o que viria a seguir.
Quando as enchentes chegaram em maio de 2024, o mercado já estava mais preparado para lidar com um cenário catastrófico. A experiência acumulada durante a pandemia, a agilidade nos processos, a articulação com autoridades e a capacidade de responder em escala foram colocadas em prática novamente, mas com ainda mais urgência. O resultado foi a devolução de mais de R$ 6 bilhões em indenizações, num ritmo que o próprio mercado nunca havia visto antes. Em meio a um prejuízo estimado em R$ 100 bilhões para o Estado, esse dinheiro representou muito mais do que reposição de bens: foi a diferença entre recomeçar e não conseguir.
Contudo, ainda há necessidade de aprimorarmos a maneira com que nos comunicamos com as pessoas. A linguagem do seguro continua distante do cotidiano de quem mais precisaria estar protegido. A leitura de uma apólice segue complicada, a ideia de que "seguro é coisa de quem tem dinheiro" segue viva, especialmente entre quem vive em áreas críticas. As crises até demonstraram o quanto o seguro importa, mas a realidade não se modificou. Ele precisa chegar antes da catástrofe, não depois.
Estamos diante de um cenário de El Niño, contexto o qual corroborou para a formação dos eventos meteorológicos que resultaram nas enchentes de 2023 e 2024. Sendo assim, o fortalecimento da cultura do seguro não é apenas uma opção, é necessário para o continuo desenvolvimento do Rio Grande do Sul. O futuro climático que nos espera não dá margem para improviso. E o setor segurador, com a experiência de dois grandes testes recentes, está pronto para seguir cumprindo o seu papel.
Fonte: Ederson Daronco, presidente do SindsegRS | CNseg | Notícias do Seguro