Infraestrutura resiliente pode ampliar acesso ao seguro no Brasil?

A discussão sobre como preparar o Brasil para eventos climáticos extremos ganhou um novo componente: o papel do seguro na proteção de cidades, empresas e infraestruturas. Em 2026, a agenda passou a envolver também questões regulatórias. A Susep incluiu “seguros e infraestrutura” na atualização do Plano de Regulação deste ano, enquanto órgãos públicos e representantes do mercado vêm discutindo como aperfeiçoar a gestão de riscos e as coberturas em projetos de infraestrutura.
A relação entre infraestrutura resiliente e seguros é direta quando o assunto é gestão de riscos. Obras de drenagem, sistemas de alerta, monitoramento, contenção de encostas e outras medidas de adaptação podem reduzir a exposição de determinadas regiões a eventos extremos.
Para o mercado segurador, conhecer melhor esses riscos é fundamental. Quanto mais informações disponíveis sobre uma região, um imóvel ou uma infraestrutura, maior a capacidade de avaliar a exposição e desenvolver soluções de proteção adequadas.
Isso não significa, porém, que investimentos em infraestrutura resultem automaticamente em seguros mais baratos. O preço de uma apólice considera diferentes fatores, como localização, características do bem, histórico de sinistros, probabilidade de ocorrência e severidade dos eventos, além das condições de cobertura e de resseguro.
Prevenção ganha espaço na agenda de riscos
O aumento da ocorrência de eventos extremos reforça a necessidade de investir antes que o desastre aconteça.
O Plano Nacional de Proteção e Defesa Civil 2025-2035, por exemplo, estabelece ações integradas de prevenção, mitigação, preparação, resposta e recuperação. O objetivo é reduzir vulnerabilidades e aumentar a resiliência das comunidades diante dos desastres.
O monitoramento também vem sendo ampliado. Em março de 2026, o Cemaden passou a monitorar 1.295 municípios, ante 1.133 anteriormente. As 162 novas cidades foram incorporadas entre localidades consideradas prioritárias para ações de gestão de riscos e desastres climáticos.
A expansão da capacidade de monitoramento é relevante para diferentes setores da economia, inclusive o segurador, porque informações sobre áreas sujeitas a inundações, enxurradas e deslizamentos ajudam a dimensionar a exposição aos riscos.
Dados ajudam a conhecer o risco
A tecnologia tem ocupado espaço crescente nessa discussão.
A CNseg desenvolveu uma ferramenta de Riscos Climáticos – Inundação, que utiliza dados históricos, climáticos, hidrológicos, geoespaciais e registros de ocorrências para gerar um score probabilístico de risco de inundação. O mapeamento abrange todo o território nacional.
Na prática, ferramentas como essa permitem que o risco seja analisado com maior nível de detalhe.
Para o seguro, essa informação pode apoiar processos como subscrição, monitoramento e avaliação de riscos climáticos. Também pode contribuir para o desenvolvimento de produtos voltados a diferentes perfis de exposição.
O avanço dos dados, portanto, não significa necessariamente redução do preço das apólices. O principal ganho está na possibilidade de conhecer melhor o risco e tomar decisões mais precisas sobre sua proteção.
Infraestrutura e seguro: uma relação que ganha atenção
A discussão já chegou à agenda institucional do setor.
Em agosto, a Susep participou de um debate sobre seguros, garantias e riscos em infraestrutura de transportes. Na ocasião, o Ministério de Portos e Aeroportos instituiu o Grupo de Trabalho sobre Seguros, Garantias e Riscos em Infraestrutura de Transporte (GT-SegInfra).
A iniciativa reúne representantes do governo, agências reguladoras, setor produtivo e mercado segurador para discutir aspectos relacionados à gestão de riscos, às exigências de seguros e à estruturação de projetos de infraestrutura.
Segundo a Susep, o objetivo é discutir a adequada alocação de riscos e as condições necessárias para o desenvolvimento de soluções de seguros compatíveis com projetos de infraestrutura.
O movimento mostra uma mudança importante na discussão: o seguro passa a ser considerado não apenas na etapa posterior a um evento, mas também na estruturação e no planejamento de projetos.
Seguro pode ajudar na resiliência das cidades
A relação entre seguro e adaptação climática também foi tema de debate durante a São Paulo Climate Week, realizada em agosto.
Representante da Susep participou de painel sobre financiamento, seguros e setor privado para adaptação climática, com discussões sobre mecanismos de financiamento, prevenção de riscos e resiliência de cidades e infraestruturas.
O tema também vem sendo tratado pelo próprio setor. Em março, episódio do SeguroPod, da CNseg, discutiu como o seguro pode contribuir para preparar cidades para eventos extremos. Entre os pontos abordados estavam investimentos em drenagem, saneamento, habitação, dados e instrumentos de proteção para populações vulneráveis.
Nesse contexto, o seguro aparece como parte de uma estratégia mais ampla. Infraestrutura, prevenção, dados e transferência de riscos são elementos que podem atuar de forma complementar.
E o preço do seguro?
É nesse ponto que a relação precisa ser analisada com cuidado.
Uma infraestrutura capaz de reduzir a frequência ou a intensidade de determinados eventos pode alterar a exposição ao risco. Mas isso não significa que o efeito será automaticamente convertido em uma redução do prêmio.
A precificação considera o conjunto de riscos relacionados ao bem ou à atividade segurada. Uma residência protegida contra determinado tipo de inundação, por exemplo, continua sujeita a outros eventos que podem ser considerados na avaliação.
Por isso, a principal contribuição da infraestrutura resiliente para o mercado segurador está na redução de vulnerabilidades e no aprimoramento da avaliação dos riscos, e não em uma promessa de seguros mais baratos.
Quando o risco é mais conhecido e mensurável, aumenta a possibilidade de desenvolver coberturas adequadas às características de cada região ou atividade.
O desafio do acesso à proteção
A discussão ganha ainda mais importância quando envolve áreas de maior vulnerabilidade.
Famílias e empresas expostas a eventos climáticos podem enfrentar dificuldades para contratar proteção financeira e, ao mesmo tempo, ter maior necessidade de recursos para reconstrução depois de um desastre.
É nesse espaço que aparece o chamado protection gap: a diferença entre as perdas econômicas provocadas por eventos adversos e a parcela dessas perdas protegida por seguros.
Reduzir essa lacuna depende de uma combinação de fatores. Entre eles estão a ampliação do conhecimento sobre riscos, políticas públicas de prevenção, investimentos em infraestrutura, desenvolvimento de produtos adequados e maior disseminação da cultura do seguro.
Prevenção e proteção caminham juntas
O aumento dos eventos climáticos extremos coloca a resiliência no centro das discussões sobre desenvolvimento e proteção financeira.
Para o setor segurador, a questão não se resume a quanto custa uma apólice. Envolve também como identificar riscos, como reduzir vulnerabilidades e como criar condições para que mais pessoas, empresas e projetos tenham acesso à proteção.
A infraestrutura resiliente pode contribuir para esse processo ao reduzir a exposição a determinados eventos e melhorar a qualidade das informações disponíveis.
O resultado esperado não é necessariamente um seguro mais barato, mas um ambiente em que risco, prevenção e proteção possam ser avaliados de maneira mais precisa.
Em um cenário de mudanças climáticas e maior exposição a eventos extremos, investir em prevenção pode ser também uma forma de fortalecer a capacidade de proteção financeira do país — e ampliar o espaço para o seguro na construção de uma sociedade mais resiliente.
Perguntas e respostas
Infraestrutura resiliente pode deixar o seguro mais barato?
Pode contribuir para uma melhor avaliação do risco, mas não significa redução automática do preço do seguro. O valor da apólice considera diversos fatores, como localização, características do bem, histórico de sinistros e exposição a diferentes riscos.
Como obras de prevenção podem ajudar o mercado segurador?
Medidas como sistemas de drenagem, contenção de encostas, monitoramento e sistemas de alerta podem reduzir a vulnerabilidade a determinados eventos. Com menor exposição e mais informações disponíveis, a avaliação dos riscos pode se tornar mais precisa.
O que é protection gap?
É a diferença entre as perdas econômicas provocadas por eventos adversos e a parcela dessas perdas que está protegida por seguros. No caso dos eventos climáticos, a redução dessa lacuna é um dos desafios para ampliar a proteção no Brasil.
O seguro pode contribuir para tornar cidades mais resilientes?
Sim. O seguro é uma ferramenta de transferência de riscos e pode fazer parte de uma estratégia que reúna prevenção, adaptação, infraestrutura e proteção financeira. Ele, porém, não substitui investimentos públicos ou privados em prevenção.
A tecnologia pode influenciar a oferta de seguros contra riscos climáticos?
Sim. Dados meteorológicos, imagens de satélite, mapas de risco, sensores e inteligência artificial podem ajudar a identificar e mensurar melhor a exposição. Essas informações podem apoiar a criação de produtos e coberturas mais adequados a diferentes perfis de risco.
Fonte: CNseg | Notícias do Seguro